sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Nos perdemos, enfim, talvez

São semanas sem poder saber como você está. Vejo você cada mais distante, longe do meu semblante espiritual. É como semear um grão, vê-lo crescer, cuidar amorosamente pelo seu fruto e, repentinamente, sair de perto e ficar à mercê da natureza e à deriva de uma catástrofe. Estar longe é mais que sentir ausência da pessoa, é gradativamente se convencer que tudo que você colheu pode ter gerado frutos para outras pessoas saborearem o seu néctar e perder num devasto qualquer. Como frutífero cultivado, hesitamos comê-lo justamente por despeito da fome, nós colhemos seu plantio porque escolhemos o fruto em nossa colheita, tal como uma especiaria se valoriza à medida certa. Perdê-lo é ressecar a boca, a alma e o sentimento. Não é mais palpável, é distante de qualquer sabor. Enfim, estamos distantes, talvez. Talvez te ache, vire um achado perdido dentro de uma gaveta revirada, como o dos meus sentimentos bagunçados. Talvez seja uma agulha no palheiro, um ponto preto contrastado numa área branca, pode ser difícil ou fácil. Caso te ache, meu valor por você vai ser redobrado, sedento, rebuscado. A gana que terei em poder te sentir fará magnificar meu olfato, imperar meu tato, aguçar meu paladar, melhorar minha visão e atentar minha audição, porque todo meu valor e sentido mudaram e a sinestesia pelo seu todo vai ser meu ouro. Te perdi, enfim, te desejo, sim, te espero, talvez. Espero um dia, sim, só mais uma vez, enfim, mas ainda estou aqui, por ti.SGO

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